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As ilhas de Pahar Ganj

Entre carros, pessoas, lixo, vacas, cães, gatos, comida, tecidos, bicicletas e tudo o que possa caber numa rua… Um hostel recolhido, numa via estreita, alheio à confusão dantesca do bairro de Pahar Ganj, em Nova Deli.

Fiquei a pensar se esta seria uma tendência por aqui e acredito que sim: com as vias principais tão saturadas, há construções, como este hostel, que aos poucos vão fugindo para dentro de ruelas (semelhantes às ilhas, no Porto) onde encontram espaço e recolhimento.

Nestes lugares, o contraste com a confusão das ruas principais é tal que parece que descemos ao subsolo ou estamos dentro cavernas. Em pelo menos 3 lugares onde passei hoje o cenário repetiu-se: de repente, enfiamos-nos num labirinto de ruas estreitas (um guia a indicar o caminho, claro) e estamos num hotel, num restaurante, numa loja. Não há praticamente janelas ou ruído nestes lugares, porque estamos longe da rua. A sensação é de maior segurança, por um lado, sim, mas também de uma certa prisão. Há pouca luz, há pouco sol.

É impensável a existência de uma varanda com espreguiçadeiras ou de uma esplanada ao ar livre num lugar como este. A forma como se convive com a rua é desconcertantemente diferente de tudo o que já vi até hoje.

A confusão é tal que não há espaço para medo. A sujidade é tal que não há espaço para nojo. Há apenas a necessidade, espontânea e imposta, de se estar alerta, porque tudo desperta os sentidos.

Hoje vi de tudo nas ruas de Deli. Um grupo de três cegos entrelaçados uns nos outros a andarem pelos milhares de carros. Famílias inteiras empoleiradas em motas. Indianos que mais pareciam sábios ou gurus a tirar selfies. Vacas a pastar no meio da rua como se de cães vadios se tratassem. Palácios riquíssimos lado a lado de prédios podres. Hoje vi de tudo, sim, mas, na verdade, sinto que não consegui ver nada. Não verdadeiramente. Falta-me compreender este lugar. Falta-me saber assimila-lo.

Em 10 dias é tarefa impossível, mas quem sabe aos poucos esta descrição enriquece…

[Na parede do hostel, marcas de um ex-hóspede português levaram a que tentasse explicar o significado da palavra saudade a um dos primeiros indianos que conheci. Uma referência familiar e inesperada à chegada de Deli.]

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Os Lusíadas ao vivo

Fotografia tirada no Cabo da Boa Esperança, na Cidade do Cabo, pela lente do telemóvel do meu pai. África do Sul, Agosto de 2016.

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(Des)pertença

“Falam português?!”, ouvimos, no segundo em que entrámos na loja de artesanato. Estava com o meu pai e um guia local na township de Imizamo Yethu, uma favela nos subúrbios de Cape Town. A voz era de um vendedor angolano na casa dos 40, alto, magro, olhos pequenos. “Que bom poder falar a minha língua!”, disse, com uma expressão de entusiasmo sincera. Estava contente por receber-nos ali.

Enquanto vasculhávamos os objetos da loja, à procura do melhor presente para comprar, deixámos-lo a descrever a sua história. Contou-nos que teve de sair de Angola, durante a guerra civil. Recusara associar-se aos dois movimentos de libertação proeminentes, o MPLA e a UNITA, deixando no ar a sugestão de que o seu regresso não seria fácil.

Perguntei-lhe se gostava de viver em Imizamo Yethu, devolveu-me um “não” imediato, acompanhado de uma embalagem de queijo vazia nas mãos. “Veja, está fora do prazo, foi isto que eu comi hoje.”

Continuou a falar-nos de si, contou-nos de onde surgiu o seu nome: “O senhor Martins adotou-me. O Fortunato era um amigo dele. Então o meu nome é Fortunato Martins, nome do amigo dele e seu próprio nome. Abreviando fica Tinato.” Quando lhe perguntei se alguma vez tentou rever a família em Angola, respondeu que sim, mas que os pais adotivos não o deixaram ficar. “Até hoje o meu coração não consegue acreditar.”, concluiu.

Apesar de não ter percebido tão bem quanto gostaria os contornos da história do Tinato, houve alguma coisa nele que me deixou profundamente comovida. A ingenuidade do olhar, a simpatia otimista, a solidão. A generosidade com que partilhou a sua história e a felicidade de poder falar português naquele dia inesperado.

15 minutos passaram e o nosso guia sul-africano, o Kenny, já desistira de esconder a impaciência – talvez porque não estivesse a perceber nada da conversa, talvez porque tivesse pressa em levar-nos até à paragem a tempo do próximo autocarro de regresso à cidade. Despedi-me rapidamente, mas não queria ir embora. Queria ter ficado ali, o resto do dia, a falar português com o Tinato.

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