Nota de (Boa) Viagem

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Em Boa Viagem, no Recife, um menino faz o seu pedido numa banca de “Hot Dog” a uma vendedora de praia. São dezenas as opções disponíveis aqui, desde o queijo coalho na brasa, o caldo de feijão, de camarão, de sururu (um marisco pequeno), os picolés, os ovos de “codorna”, algodão doce, enfim. Dezenas também são os vendedores que apregoam os produtos caminhando na areia, sob o sol que lhes torra a pele, mas – ao que parece – não o ânimo.

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Os Lusíadas ao vivo

Fotografia tirada no Cabo da Boa Esperança, na Cidade do Cabo, pela lente do telemóvel do meu pai. África do Sul, Agosto de 2016.

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Uma arte aberta, em movimento

Três pessoas olham para uma parede de imagens sobrepostas, durante uma “Alternative Walking Tour”, em Brick Lane, Londres.

O guia explica-nos que é uma espécie de “arte aberta”, na qual vários artistas (muitos anónimos) vão deixando a sua marca com autocolantes, graffitis, etc. Uma tela aberta, imprevisível, em movimento, e cuja autenticidade, sugerem as palavras do guia, reside numa espécie de democracia de rua, na qual a parede é de todos mas, na verdade, não é de nenhum.

Continuamos a tour pela rua e, mais à frente, surgem alguns desenhos “de autor”. São imagens assinadas, em certos casos legalizadas, em paredes ou portões cedidos pelos próprios proprietários para uso do artista. Aqui, a ideologia anterior perde significado, porque a obra é única e a autoria também.

Apreendo o tom depreciativo do guia e o contraste que pretende estabelecer entre os dois cenários: de um lado, vemos a arte urbana na sua essência. Do outro, a arte urbana como que “corrompida pelo sistema”. Coletividade/Elitismo, Anonimato/Ego, Ousadia/Formalismo são alguns dos conceitos que, criticamente, contrapõe.

O seu discurso provoca-me, porque mais do que avaliar os desenhos, sinto que avalia valores. Comportamentos. Moral. Há um código de conduta latente – pleno de posturas políticas e rígido na sua aversão à rigidez – que sustenta cada observação que faz.

E embora não me reveja em tudo o que diz – não me parece nada evidente que toda a arte deva ser aberta, nem que a ausência de lei certifique o artista – não consigo ignorar uma ligeira poesia nas suas palavras. Afinal… Se a base moral não fosse tão forte, será que a mística da arte urbana seria a mesma?

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Andar de metro é um privilégio

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Outro dia ia no metro a pensar… De segunda a sexta, o trajeto é o mesmo. Casa-metro-trabalho. Trabalho-metro-casa.

Não é uma queixa, é a constatação de um facto, e mesmo que não seja absolutamente verdade (é claro que a fórmula não é rígida), a tendência é o repetir da rotina.
Casa-metro-trabalho. Trabalho-metro-casa.

Da minha desordenada – e tão corriqueira! – divagação existencial, sucedeu-se uma conclusão divertida. Andar de metro é um privilégio.

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Tempo de antena

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Tínhamos chegado há pouco mais de duas horas a Windhoeck, capital da Namíbia, depois de uma interminável viagem de 21 horas de camioneta. Ao passearmos na rua, desembocamos numa feira de bijutaria africana. Passei e olhei discretamente, sem parar em nenhuma das banquinhas. Estava em território novo, sentia-me intimidada, e desconfiava que se me debruçasse com o mínimo interesse sobre alguma pulseira ou anel, dificilmente me “safaria” de lidar com a minha timidez de estrangeira. Tentei passar despercebida… Em vão.

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(Des)pertença

“Falam português?!”, ouvimos, no segundo em que entrámos na loja de artesanato. Estava com o meu pai e um guia local na township de Imizamo Yethu, uma favela nos subúrbios de Cape Town. A voz era de um vendedor angolano na casa dos 40, alto, magro, olhos pequenos. “Que bom poder falar a minha língua!”, disse, com uma expressão de entusiasmo sincera. Estava contente por receber-nos ali.

Enquanto vasculhávamos os objetos da loja, à procura do melhor presente para comprar, deixámos-lo a descrever a sua história. Contou-nos que teve de sair de Angola, durante a guerra civil. Recusara associar-se aos dois movimentos de libertação proeminentes, o MPLA e a UNITA, deixando no ar a sugestão de que o seu regresso não seria fácil.

Perguntei-lhe se gostava de viver em Imizamo Yethu, devolveu-me um “não” imediato, acompanhado de uma embalagem de queijo vazia nas mãos. “Veja, está fora do prazo, foi isto que eu comi hoje.”

Continuou a falar-nos de si, contou-nos de onde surgiu o seu nome: “O senhor Martins adotou-me. O Fortunato era um amigo dele. Então o meu nome é Fortunato Martins, nome do amigo dele e seu próprio nome. Abreviando fica Tinato.” Quando lhe perguntei se alguma vez tentou rever a família em Angola, respondeu que sim, mas que os pais adotivos não o deixaram ficar. “Até hoje o meu coração não consegue acreditar.”, concluiu.

Apesar de não ter percebido tão bem quanto gostaria os contornos da história do Tinato, houve alguma coisa nele que me deixou profundamente comovida. A ingenuidade do olhar, a simpatia otimista, a solidão. A generosidade com que partilhou a sua história e a felicidade de poder falar português naquele dia inesperado.

15 minutos passaram e o nosso guia sul-africano, o Kenny, já desistira de esconder a impaciência – talvez porque não estivesse a perceber nada da conversa, talvez porque tivesse pressa em levar-nos até à paragem a tempo do próximo autocarro de regresso à cidade. Despedi-me rapidamente, mas não queria ir embora. Queria ter ficado ali, o resto do dia, a falar português com o Tinato.

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