“Will you take a picture with me?”

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“Will you take a picture with me?”, foi a pergunta que mais nos fizeram ao longo da noite. Antes da partir para a Índia já me tinham “avisado” de que isso aconteceria muitas vezes: os indianos gostam de tirar fotografias com estrangeiros e, por isso, devia estar preparada para muitos pedidos. Não era possível perceber o significado dessa proposta até o alvo ser eu própria, e confesso que continuo até hoje a tentar dissecar o fenómeno.

Esta fotografia foi tirada num casamento hindu, para o qual fomos convidados, mas há mais. Muitas mais. Para se perceber a dimensão da “questão”, a certa altura, o meu pai e eu éramos mais protagonistas da festa do que os próprios noivos. Fomos invadidos por flashes durante mais de 20 minutos, e os olhos estiveram postos em nós durante todo o casamento. Deram-nos flores, comida, e mal manifestássemos a mínima vontade como, por exemplo, sede, já tínhamos um copo de água na mão. Uma das matriarcas chegou a agarrar-me pelos dois braços e a olhar-me fixamente nos olhos, calada e com um sorriso.

Que loucura, que louco mesmo. Achava que ia ser eu a tirar fotografias, mas, afinal… Nunca me senti tão gratuitamente adorada, admirada, sei lá, nem sei bem que palavra usar. Passei o resto da viagem a tentar perceber o porquê de tudo isto e, a cada dia passado, um dado novo permitiu que compreendesse melhor.

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Andar de metro é um privilégio – parte II

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Fazer o mesmo percurso todos os dias tem uma contrapartida engraçada. Repete-se o caminho, repetem-se as estações e, no meio da multidão ensardinhada no metro, repetem-se também as caras que, como eu, repetem o mesmo percurso, todos os dias.

Às vezes penso que no dia em que a minha rotina mudar – e vai mudar, naturalmente – nunca mais vou ver aquelas caras. Assim é, assim tem de ser, porque elas só fizeram sentido para mim ali, naquele espaço, naqueles dias, pela circunstância comum de partilharem o mesmo percurso que eu.

A ausência de relação entre mim e as pessoas do metro é a maior certeza deste texto. Mas o que falha em ligação sobra em espaço para imaginar. E agora, não consigo evitar um sorriso discreto de cada vez que vejo alguma destas caras, que, por simples repetição, se tornaram familiares para mim.

Pelo propósito lúdico de descrever aquilo que vejo e de registar instantes que de outra forma ficariam perdidos na minha memória, decidi fazer uma lista de quem mais encontro. A lista que se segue é referente a pessoas reais, mas a descrição de cada uma é absolutamente subjetiva. É baseada naquilo que observo e naquilo que me atrevo a magicar, nas minhas infinitas incursões pelo metro de Lisboa.

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Salvador Sobral, o anti-herói português

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Não queria cansar muito mais o assunto, mas houve alguma coisa no fenómeno Salvador Sobral que me deixou a pensar e incitou a escrever. Como é habitual, o “buzz” em torno do artista foi-me chegando gradualmente…Três, seis, dez posts por dia, até que enfim abri o Youtube e ouvi a música, alvo de tantas e tantas partilhas nas redes sociais.

Sob o risco ferir sensibilidades com o que vou dizer de seguida, senti honesta surpresa ao ver e ouvir a atuação pela primeira vez. Sim, achei o tema bonito. Sim, a voz agradável também. Mas seria caso para tanto?… O que é que se passa com as pessoas, ou o que é que se passa comigo, que não consigo apreender a transcendente beleza de “Amar Pelos Dois”?

Continuei a matutar, a pesquisar, a ler notícias, crónicas, até que me esbarrei com a página do Facebook da Eurovisão da Canção. Aos poucos, as ideias foram ficando mais claras…

No sobe e desce da página, fui conhecendo os restantes candidatos. Não foram necessários muitos minutos para me aperceber dos traços em comum daquele grupo de “performances”: música pop, apelo comercial, interpretação em inglês, alto espalhafato no palco… Se pudesse nomear uma referência rápida para aquele conjunto de participações? Lady Gaga.

E de repente, entre as carradas de vídeos e posts, surge novamente no ecrã o Salvador Sobral, com o triplo ou o quádruplo de likes e de mensagens de força das mais variadas partes do mundo. Desta vez, consegui vislumbrar o tal português despretensioso, simples, autêntico. O Salvador Sobral que dispensa pirotecnias, atua sozinho e na língua materna. Conhecidos os contornos daquele contexto, ficou mais clara, enfim, a súbita “Salvadormania”.

É engraçado como a minha perceção mudou, mal atribui um termo de comparação e um contexto ao fenómeno. Se da primeira vez que vi o vídeo senti um certo despropósito na idolatria daquela figura, da segunda já consegui gostar – e até comover-me – com a tão aclamada atuação. Mas porquê, então? Porque é que só depois de conhecer o contexto é que verdadeiramente consegui apreciar o Salvador Sobral?

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O inquietante mundo de Robert Mapplethorpe

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Há pouco tempo caí, sem querer, no inquietante mundo de Robert Mapplethorpe. Não conhecia o fotógrafo, nem de nome, até ver um documentário sobre a sua gritantemente polémica vida e obra.

 “Robert Mapplethorpe: Look at the pictures” é um tatear cronológico sobre o percurso do protagonista. Desde a educação católica, à relação com a cantora punk Patti Smith, às sessões sadomasoquistas num clube nova-iorquino chamado The Mineshaft, à morte, com SIDA, aos 42 anos.

A vida de Robert é nos apresentada como um crescendo de excessos e um superar de cada um deles, incansavelmente documentado pelo fotógrafo através da sua obra. Obra que, tal como a sua própria vida, se polariza  entre inofensivas fotografias de flores e – atenção que o conceito é discutível – pornografia sadomasoquista gay.

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Nota de (Boa) Viagem

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Em Boa Viagem, no Recife, um menino faz o seu pedido numa banca de “Hot Dog” a uma vendedora de praia. São dezenas as opções disponíveis aqui, desde o queijo coalho na brasa, o caldo de feijão, de camarão, de sururu (um marisco pequeno), os picolés, os ovos de “codorna”, algodão doce, enfim. Dezenas também são os vendedores que apregoam os produtos caminhando na areia, sob o sol que lhes torra a pele, mas – ao que parece – não o ânimo.

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Os Lusíadas ao vivo

Fotografia tirada no Cabo da Boa Esperança, na Cidade do Cabo, pela lente do telemóvel do meu pai. África do Sul, Agosto de 2016.

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