Andar de metro é um privilégio – parte II

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Fazer o mesmo percurso todos os dias tem uma contrapartida engraçada. Repete-se o caminho, repetem-se as estações e, no meio da multidão ensardinhada no metro, repetem-se também as caras que, como eu, repetem o mesmo percurso, todos os dias.

Às vezes penso que no dia em que a minha rotina mudar – e vai mudar, naturalmente – nunca mais vou ver aquelas caras. Assim é, assim tem de ser, porque elas só fizeram sentido para mim ali, naquele espaço, naqueles dias, pela circunstância comum de partilharem o mesmo percurso que eu.

A ausência de relação entre mim e as pessoas do metro é a maior certeza deste texto. Mas o que falha em ligação sobra em espaço para imaginar. E agora, não consigo evitar um sorriso discreto de cada vez que vejo alguma destas caras, que, por simples repetição, se tornaram familiares para mim.

Pelo propósito lúdico de descrever aquilo que vejo e de registar instantes que de outra forma ficariam perdidos na minha memória, decidi fazer uma lista de quem mais encontro. A lista que se segue é referente a pessoas reais, mas a descrição de cada uma é absolutamente subjetiva. É baseada naquilo que observo e naquilo que me atrevo a magicar, nas minhas infinitas incursões pelo metro de Lisboa.

Segue a lista, por ordem de frequência de encontros:

O hipster francês
Deve ter uns 22 anos. Não sei se é francês, mas encaixa no estereótipo intelectual um tanto feminino, magro, alto, gestos suaves. Costuma usar um chapéu sobre os cabelos encaracolados, anéis nos dedos e calças justas. Dos olhos, ressaltam uns óculos de massa castanhos. É o que vejo mais vezes, a ir para a Faculdade, suponho, ou para o que deverá ser um dos seus primeiros empregos. Quando surge de barba bem-feita, deixa ainda mais evidente o seu ar muito jovem.

O “transgénero” cuja estética ainda não consegui identificar
Sempre que me cruzo com ele (ou ela, não sei se preferiria ser chamado/chamada assim), lembro-me do statement que fazemos com o que vestimos, mesmo que, por vezes, de forma inconsciente. Lembro-me também de como o visual ganha especial importância na adolescência – que imagino ser o período que atravessa – na afirmação dos valores, ideias e universos que pretendemos associar ao nosso recém-descoberto eu. É um rapaz dos seus 18 anos, talvez, que inegavelmente foge a convenções no que toca a indumentária. Às vezes surge com um casaco desportivo em tactel roxo, outras vezes com camisas em padrões coloridos, entre o vintage e o antiquado. Nos pés, umas botas de plataforma punk, numa mistura de subculturas que me deixa confusa. Um esforço pelo politicamente correto não me permitiria apelidá-lo de transgénero – quem sou eu para etiquetar alguém dessa forma? – mas alguns sinais, como a maquilhagem nos olhos e lábios e o cabelo apanhado em dois puxos, levam-me a acreditar, pelo menos, numa não conformidade de género.

A modelo italiana
É alta, magra, e costuma aparecer com uns botins de cano baixo pretos que fazem barulho ao caminhar. Anda sempre impecavelmente bem vestida, é frequente vê-la com um casaco de pelo preto. Digo que é italiana pela visível (e estereotipada) preocupação com a roupa e com as últimas tendências da moda. Modelo, porque é bonita e porque caminha com a segurança de saber que o é. Olhos claros e um nariz arredondado que me fazem lembrar uma amiga da minha mãe. Bonita e vivaz, como ela, também. Deixa um rastro de perfume quando passa. Cabelo castanho, liso, comprido.

O vilão da Agatha Christie
É um dos homens mais peculiares que já vi. A estatura é baixa – poderá ser anão – e a cara grande, ligeiramente desproporcional em relação ao resto do corpo. Os olhos azuis escondem-se por trás das sobrancelhas espessas, numa profundidade realçada pelos ossos salientes da fronte. As maçãs do rosto bem demarcadas ajudam ao semblante duro, pouco amigável. É uma figura claramente dissonante do resto da multidão e parece vinda de outro tempo, de outro lugar. Será das roupas? Não me consigo lembrar do que costuma vestir… A sua fisionomia (acredito que eslava) é tão característica que não resisto a imaginá-lo num livro policial da Agatha Christie. Daria um vilão russo perfeito, numa história ambientada nos tempos da Guerra Fria, por exemplo. Imagino ter cerca de 35 anos.

O francês que efetivamente conheço
Poderia não estar nesta lista, não é um perfeito estranho. Fomos rapidamente apresentados há um ano e tal atrás, por uma amiga francesa que temos em comum. Lembro-me de que ele estava a trabalhar em Lisboa, seria arquiteto, designer, nenhum dos dois? É possível que não me reconheça ou, então, como eu, ainda não teve o ímpeto de dizer olá. Talvez um dia destes tire a dúvida.

A pequena índia
Há uma história associada a esta pessoa que ainda não me decidi a esclarecer. Conheci um casal na África do Sul que, a propósito de pessoas pequenas, me falou de uma amiga de origem indígena. “É tão pequena e aparentemente infantil”, contaram-me, “que às vezes as pessoas na rua são inconvenientes quando a vêem com o namorado”. Quando ouvi a história, a minha memória gritou: “É ela!!! A índia pequena que vejo no metro!!!”. Nunca cheguei a ter a certeza e nunca lhe cheguei a perguntar. Falta-me coragem, como haveria de perguntar? Continuo a observá-la e a imaginar o que se esconde por detrás daquela figura. Além do tamanho, reparo na beleza – é uma mini Pocahontas. Carrega um misto de infantilidade e exotismo, que deve ser – imagino – atraente para muitos homens.

O ken loiro
Na maioria das vezes o que me capta a atenção é a imagem, mas no caso do ken loiro, foi o cheiro: a after shave. Uma vez direcionado o olhar, comecei a observar o resto. É um homem alto, bem-feito, sempre de fato e gravata. Está queimado pelo sol – mesmo quando não está bom tempo – e o cabelo loiro alaranjado parece tingido por parafina. Tenho sempre a sensação que acabou de sair do banho, porque além do cheiro, costuma trazer o cabelo molhado. Será um advogado, consultor? A preocupação com a imagem é visível.

A punk old-school
Um visual diferenciado pode ser a imagem de marca da adolescência, já o disse em cima, mas esta mulher lembra-me que não é só aos 16 anos que se foge à norma. Deve ter 40 e poucos anos, cabelo rapado dos lados, uma crista pequena, várias argolas nas orelhas. Também costuma surgir com umas botas pretas de plataforma que, embora mais discretas que as do “transgénero”, me levam a concluir que se identifica com a cultura punk. Em que é que será que trabalha?

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Salvador Sobral, o anti-herói português

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Não queria cansar muito mais o assunto, mas houve alguma coisa no fenómeno Salvador Sobral que me deixou a pensar e incitou a escrever. Como é habitual, o “buzz” em torno do artista foi-me chegando gradualmente…Três, seis, dez posts por dia, até que enfim abri o Youtube e ouvi a música, alvo de tantas e tantas partilhas nas redes sociais.

Sob o risco ferir sensibilidades com o que vou dizer de seguida, senti honesta surpresa ao ver e ouvir a atuação pela primeira vez. Sim, achei o tema bonito. Sim, a voz agradável também. Mas seria caso para tanto?… O que é que se passa com as pessoas, ou o que é que se passa comigo, que não consigo apreender a transcendente beleza de “Amar Pelos Dois”?

Continuei a matutar, a pesquisar, a ler notícias, crónicas, até que me esbarrei com a página do Facebook da Eurovisão da Canção. Aos poucos, as ideias foram ficando mais claras…

No sobe e desce da página, fui conhecendo os restantes candidatos. Não foram necessários muitos minutos para me aperceber dos traços em comum daquele grupo de “performances”: música pop, apelo comercial, interpretação em inglês, alto espalhafato no palco… Se pudesse nomear uma referência rápida para aquele conjunto de participações? Lady Gaga.

E de repente, entre as carradas de vídeos e posts, surge novamente no ecrã o Salvador Sobral, com o triplo ou o quádruplo de likes e de mensagens de força das mais variadas partes do mundo. Desta vez, consegui vislumbrar o tal português despretensioso, simples, autêntico. O Salvador Sobral que dispensa pirotecnias, atua sozinho e na língua materna. Conhecidos os contornos daquele contexto, ficou mais clara, enfim, a súbita “Salvadormania”.

É engraçado como a minha perceção mudou, mal atribui um termo de comparação e um contexto ao fenómeno. Se da primeira vez que vi o vídeo senti um certo despropósito na idolatria daquela figura, da segunda já consegui gostar – e até comover-me – com a tão aclamada atuação. Mas porquê, então? Porque é que só depois de conhecer o contexto é que verdadeiramente consegui apreciar o Salvador Sobral?

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O inquietante mundo de Robert Mapplethorpe

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Há pouco tempo caí, sem querer, no inquietante mundo de Robert Mapplethorpe. Não conhecia o fotógrafo, nem de nome, até ver um documentário sobre a sua gritantemente polémica vida e obra.

 “Robert Mapplethorpe: Look at the pictures” é um tatear cronológico sobre o percurso do protagonista. Desde a educação católica, à relação com a cantora punk Patti Smith, às sessões sadomasoquistas num clube nova-iorquino chamado The Mineshaft, à morte, com SIDA, aos 42 anos.

A vida de Robert é nos apresentada como um crescendo de excessos e um superar de cada um deles, incansavelmente documentado pelo fotógrafo através da sua obra. Obra que, tal como a sua própria vida, se polariza  entre inofensivas fotografias de flores e – atenção que o conceito é discutível – pornografia sadomasoquista gay.

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Nota de (Boa) Viagem

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Em Boa Viagem, no Recife, um menino faz o seu pedido numa banca de “Hot Dog” a uma vendedora de praia. São dezenas as opções disponíveis aqui, desde o queijo coalho na brasa, o caldo de feijão, de camarão, de sururu (um marisco pequeno), os picolés, os ovos de “codorna”, algodão doce, enfim. Dezenas também são os vendedores que apregoam os produtos caminhando na areia, sob o sol que lhes torra a pele, mas – ao que parece – não o ânimo.

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Os Lusíadas ao vivo

Fotografia tirada no Cabo da Boa Esperança, na Cidade do Cabo, pela lente do telemóvel do meu pai. África do Sul, Agosto de 2016.

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Uma arte aberta, em movimento

Três pessoas olham para uma parede de imagens sobrepostas, durante uma “Alternative Walking Tour”, em Brick Lane, Londres.

O guia explica-nos que é uma espécie de “arte aberta”, na qual vários artistas (muitos anónimos) vão deixando a sua marca com autocolantes, graffitis, etc. Uma tela aberta, imprevisível, em movimento, e cuja autenticidade, sugerem as palavras do guia, reside numa espécie de democracia de rua, na qual a parede é de todos mas, na verdade, não é de nenhum.

Continuamos a tour pela rua e, mais à frente, surgem alguns desenhos “de autor”. São imagens assinadas, em certos casos legalizadas, em paredes ou portões cedidos pelos próprios proprietários para uso do artista. Aqui, a ideologia anterior perde significado, porque a obra é única e a autoria também.

Apreendo o tom depreciativo do guia e o contraste que pretende estabelecer entre os dois cenários: de um lado, vemos a arte urbana na sua essência. Do outro, a arte urbana como que “corrompida pelo sistema”. Coletividade/Elitismo, Anonimato/Ego, Ousadia/Formalismo são alguns dos conceitos que, criticamente, contrapõe.

O seu discurso provoca-me, porque mais do que avaliar os desenhos, sinto que avalia valores. Comportamentos. Moral. Há um código de conduta latente – pleno de posturas políticas e rígido na sua aversão à rigidez – que sustenta cada observação que faz.

E embora não me reveja em tudo o que diz – não me parece nada evidente que toda a arte deva ser aberta, nem que a ausência de lei certifique o artista – não consigo ignorar uma ligeira poesia nas suas palavras. Afinal… Se a base moral não fosse tão forte, será que a mística da arte urbana seria a mesma?

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