Salvador Sobral, o anti-herói português

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Não queria cansar muito mais o assunto, mas houve alguma coisa no fenómeno Salvador Sobral que me deixou a pensar e incitou a escrever. Como é habitual, o “buzz” em torno do artista foi-me chegando gradualmente…Três, seis, dez posts por dia, até que enfim abri o Youtube e ouvi a música, alvo de tantas e tantas partilhas nas redes sociais.

Sob o risco ferir sensibilidades com o que vou dizer de seguida, senti honesta surpresa ao ver e ouvir a atuação pela primeira vez. Sim, achei o tema bonito. Sim, a voz agradável também. Mas seria caso para tanto?… O que é que se passa com as pessoas, ou o que é que se passa comigo, que não consigo apreender a transcendente beleza de “Amar Pelos Dois”?

Continuei a matutar, a pesquisar, a ler notícias, crónicas, até que me esbarrei com a página do Facebook da Eurovisão da Canção. Aos poucos, as ideias foram ficando mais claras…

No sobe e desce da página, fui conhecendo os restantes candidatos. Não foram necessários muitos minutos para me aperceber dos traços em comum daquele grupo de “performances”: música pop, apelo comercial, interpretação em inglês, alto espalhafato no palco… Se pudesse nomear uma referência rápida para aquele conjunto de participações? Lady Gaga.

E de repente, entre as carradas de vídeos e posts, surge novamente no ecrã o Salvador Sobral, com o triplo ou o quádruplo de likes e de mensagens de força das mais variadas partes do mundo. Desta vez, consegui vislumbrar o tal português despretensioso, simples, autêntico. O Salvador Sobral que dispensa pirotecnias, atua sozinho e na língua materna. Conhecidos os contornos daquele contexto, ficou mais clara, enfim, a súbita “Salvadormania”.

É engraçado como a minha perceção mudou, mal atribui um termo de comparação e um contexto ao fenómeno. Se da primeira vez que vi o vídeo senti um certo despropósito na idolatria daquela figura, da segunda já consegui gostar – e até comover-me – com a tão aclamada atuação. Mas porquê, então? Porque é que só depois de conhecer o contexto é que verdadeiramente consegui apreciar o Salvador Sobral?

Há uma resposta fácil para esta pergunta: não percebo nada de música e, por isso, naturalmente, não serei a melhor pessoa para identificar de imediato um bom artista. E até podia terminar o texto aqui, mas iria terminá-lo em seco, e com a incómoda desconfiança de que não é só de música de que estamos a falar.

Não. Há outra coisa no Salvador. Há outra coisa…

Pensar sobre o que me levou a mudar de opinião tão rápido e, mais do que isso, sobre onde reside a chave do “buzz” em torno do Salvador Sobral, levou-me para outras paragens. Curiosamente, desta vez, esbarrei-me num texto deste blog, a propósito de uma figura absolutamente antagónica, mas que, como o Salvador, me chegou como outro caso improvável de idolatria: o fotógrafo Robert Mapplethorpe.

Na ocasião, escrevi que, não só a fotografia, mas um número diverso de fatores que vão além da fotografia, fizeram o artista. Reciclo o raciocínio para este texto, porque, mais uma vez me parece que o mediatismo gerado em torno do protagonista não se baseia única e exclusivamente na música ou na voz do Salvador.

É a figura como um todo – e, sobretudo, o que essa figura representa para as pessoas no contexto muito específico em que se insere – que decifra, parece-me, a sua repentina notoriedade. Em boa verdade, será que noutro tempo e noutro lugar, o Salvador teria merecido o mesmo destaque? Em boa verdade também, teria o candidato chegado tão longe se o público, por alguma razão, não estivesse predisposto a gostar daquilo que viu?

E agora, enfim, cheguei aonde me parece residir o verdadeiro cerne da questão: no público. Partindo do princípio que é o público que determina os seus ídolos, vale a pena voltarmos o olhar para quem, efetivamente, o trouxe até aqui. Deste ponto de vista – e não querendo desmerecer o artista – o Salvador Sobral é quase acessório. Do mesmo ponto de vista, muito mais do que um músico que se destacou num concurso, o Salvador Sobral é um grito desesperado daquilo que nós, público, queremos ver. E o que é, afinal, aquilo que queremos ver?

Queremos ver uma camisa amarrotada e não uma cara cheia de maquilhagem. Queremos ver orgulho na língua materna e não a anglofonia dominante. Queremos ver gestos suaves – o que importa se no limite do desengonçado? – e não coreografias grandiosas e pensados ao minuto. Queremos ouvir músicas sobre despretensão e amor e não hits comerciais em honra à Myley Cyrus. Queremos ver união entre irmãos e lembramo-nos da nossa própria família. Queremos autenticidade, não produção. Queremos minoria e não multidão. Queremos sentir compaixão (o Salvador tem um problema cardíaco!!!). Queremos fragilidade. Queremos… O que é bom e o que é de verdade.

Acredito que o contraste estabelecido entre o universo de significados que o Salvador Sobral encarna tenha precipitado esta súbita descoberta de vontades do público. Para mim, pelo menos, foi importante conhecer os restantes candidatos – e o que eles, por seu turno, representam – para compreender e empatizar com a onda de comoção que se gerou em torno do artista.

Dissecado o fenómeno, comove-me, também, o Salvador Sobral. Mas não é bem a música, não bem a voz… Comove-me descobrir que o público – e que eu, enquanto público – se permita adorar (e não enxovalhar) uma figura tão claramente dissonante. Comove-me como quisemos olhar para além do espetáculo, do “show bizz” e da purpurina, para dar espaço a quem representa uma minoria mais frágil, mas muito mais autêntica. Comove-me que Portugal, por irónica coincidência, se tenha feito representar dessa forma. Comove-me aperceber-me, de repente, dessa mudança de paradigma.

Gostava muito de encerrar este texto com o parágrafo de cima, mas a verdade é que refletir sobre o assunto não me apaziguou como eu gostaria. Apesar de vislumbrar uma mudança positiva – que bom que consigamos, de repente, promover este tipo de “anti-herói” – não consigo deixar de entrever uma certa relação de disfuncionalidade entre aquilo que o Salvador representa – autenticidade, simplicidade, minoria, … – e as características próprias do universo da fama. Quem sabe uma reflexão para outro dia…

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