O inquietante mundo de Robert Mapplethorpe

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Há pouco tempo caí, sem querer, no inquietante mundo de Robert Mapplethorpe. Não conhecia o fotógrafo, nem de nome, até ver um documentário sobre a sua gritantemente polémica vida e obra.

 “Robert Mapplethorpe: Look at the pictures” é um tatear cronológico sobre o percurso do protagonista. Desde a educação católica, à relação com a cantora punk Patti Smith, às sessões sadomasoquistas num clube nova-iorquino chamado The Mineshaft, à morte, com SIDA, aos 42 anos.

A vida de Robert é nos apresentada como um crescendo de excessos e um superar de cada um deles, incansavelmente documentado pelo fotógrafo através da sua obra. Obra que, tal como a sua própria vida, se polariza  entre inofensivas fotografias de flores e – atenção que o conceito é discutível – pornografia sadomasoquista gay.

Uma primeira descrição, positiva e imediata, dá conta de um Robert ousado e corajoso. Um fotógrafo transgressor que, no pico da sua produção artística, abriu a porta de universos escondidos – mas existentes! – sem os pruridos morais de uma sociedade conservadora.

Uma outra descrição, mais crítica e negativa, expõe a sua personalidade autocentrada, ambiciosa e manipuladora. Alguém que, pela fama, embarcou numa jornada de excessos para impressionar as pessoas.

“I always thought I was good. That’s why it was so frustrating when other people didn’t agree.”

Robert Mapplethorpe

Mas quem foi Robert Mapplethorpe, afinal? Um fotógrafo visionário ou um puro sensacionalista? A pergunta é mais difícil do que aparenta… Pelo número infinito de outras questões que levanta.

O que faz um artista? A competência no ofício? A polémica?

O que é que é arte? O que é bonito? O que impacta?

Quais os limites para o que devemos mostrar? Deve haver limites? Quais é que são?

Se Robert Mapplethorpe foi, ou não, um fotógrafo visionário, é difícil de dizer. Faltam-me os critérios específicos para avaliar o ofício, não sou fotógrafa, não sei responder. Mas se por um lado me falha um entendimento mais especializado sobre o que é fotografia, posso, por outro, inferir, com quase toda a certeza, que não foi só por ser fotógrafo que Robert Mapplethorpe ficou famoso. Na confusão gerada pela pergunta “o que faz o artista?”, creio que é justo responder que o que o que fez Robert Mapplethorpe foi um conjunto de fatores que vão além da sua obra.

Robert Mapplethorpe era um homem bonito, sedutor. Envolveu-se com uma cantora famosa no início de carreira e com um mecenas bilionário a meio do caminho. Assumiu-se homossexual e sadomasoquista, numa altura em que a tolerância era muito menor do que hoje. E morreu cedo, vítima dos próprios excessos, numa mística que bebe do imaginário de artistas como Jim Morrison, Janis Joplin ou Amy Winehouse.

Não, Robert Mapplethorpe não foi só um fotógrafo e circunscrevê-lo a essa categoria é reduzir a figura com um todo. Mais do que um fotógrafo, Robert Mapplethorpe foi uma personagem de culto. Um ídolo, bom ou mau, que nos recorda que o culto da obra e o culto da personalidade andam, muitas vezes, de mãos dadas. E que o que consagrou o artista foi a mistura dos dois.

A premissa de que Robert Mapplethorpe não foi só um fotógrafo, não exclui, no entanto, a necessidade de olhar as suas fotografias, na tentativa de lhe traçar um perfil. Pelo contrário, a desconstrução do artista passa necessariamente pela análise da obra, sobretudo quando falamos da parcela de fotografias que levantou um fervoroso debate nos Estados Unidos na década de 90, em torno dos limites (ou ausência deles) da liberdade de expressão.

O portfólio de Robert Mapplethorpe é díspar, quase sempre em preto e branco, passando por autorretratos, nus masculinos e femininos, flores, retratos de celebridades (incluindo Andy Warhol, Carolina Herrera, Iggy Pop, Yoko Ono) e estatuária. E a parcela responsável pela polémica – claro – foi aquela que tocou o universo mais sensível: a sexualidade.

O documentário mostra que também esta parte da obra é bipolar. De um lado, registos de uma nudez tímida, suave, até poética, de Patti Smith e de outros parceiros de Robert Mapplethorpe. Do outro, imagens de sexo cru, em retratos e autorretratos tão brutais, que a simples identificação com a dor física ilustrada pode gerar repulsa. Essas fotografias podem ser encontradas, entre outras, no Google, sob a pesquisa “Robert Mapplethorpe – The X Files”.

“I don’t like that particular word ‘shocking.’ I’m looking for the unexpected. I’m looking for things I’ve never seen before … I was in a position to take those pictures. I felt an obligation to do them.”

Robert Mapplethorpe

A pergunta que imediatamente se levanta: Será que Robert Mapplethorpe devia ter mostrado aquelas fotografias? Ou, se quisermos ir mais longe: Será que Robert Mapplethorpe devia ter tirado aquelas fotografias? A resposta parece estar no site oficial do próprio fotógrafo, gerido pela Robert Mapplethorpe Foundation, que não inclui essas imagens, num semi-reconhecimento de que esse foi o limite para a jornada de excessos do autor. E no enfatizar de que Robert Mapplethorpe não foi só “aquilo”. Mas “aquilo”, não podemos negar, foi o que verdadeiramente o catapultou para a fama. “Aquilo”, por essa razão, é difícil – impossível – de ignorar.

No rescaldo da minha queda no inquietante mundo de Robert Mapplethorpe, fica uma sensação de ambivalência. Se por um lado compreendo o culto da transgressão e reconheço o pioneirismo da obra, por outro, acentua-se a certeza de que, mais do que arte, Robert Mapplethorpe viu na fotografia um instrumento de poder sobre os outros. Poder sobre quem fotografou – porque era ele quem comandava o registo – e poder sobre quem impressionou com as suas fotografias. E serão esses os ídolos que queremos consagrar?…

“To make pictures big is to make them more powerful.”

Robert Mapplethorpe

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