Tempo de antena

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Tínhamos chegado há pouco mais de duas horas a Windhoeck, capital da Namíbia, depois de uma interminável viagem de 21 horas de camioneta. Ao passearmos na rua, desembocamos numa feira de bijutaria africana. Passei e olhei discretamente, sem parar em nenhuma das banquinhas. Estava em território novo, sentia-me intimidada, e desconfiava que se me debruçasse com o mínimo interesse sobre alguma pulseira ou anel, dificilmente me “safaria” de lidar com a minha timidez de estrangeira. Tentei passar despercebida… Em vão.

“Here blond, here!”, chamavam as vozes quase em uníssono, do meu lado direito. “Here, here! Come, see!”. A esta altura já tinha desistido de não parar, até porque outro estímulo tinha acabado de me chamar a atenção: cinco mulheres seminuas, decoradas de colares, pulseiras, braceletes e todo o tipo de fios de missangas e sementes à volta do corpo avermelhado de barro. Na cabeça, uma espécie de pasta vermelha dividia o cabelo em rastas fininhas. Ao final de cada rasta, o cabelo escuro saía frondoso e cheio de força.

Sentei-me de cócoras em frente à banquinha para ver a bijutaria: queria estar mais próxima delas. Ainda tímida, peguei numa ou duas pulseiras, sem que pudesse prever a consequência imediata daquele gesto. “Here, take this one!”, diziam as vozes mais alto, enquanto via o que me pareciam milhares de mãos a puxar-me e a apertar-me pulseiras nos pulsos. Já devia ter umas dez em cada braço, embora mal conseguisse contar. “Here, this!”, continuavam elas, à medida que me enchiam também os braços de barro. No meio daquele frenesim ciganesco do tira e põe de pulseiras, acabei por concordar em comprar, claro, mas nem me apercebi direito do valor acordado. Tinha sido engolida.

No meio daquele frenesim ciganesco do tira e põe de pulseiras, acabei por concordar em comprar, claro, mas nem me apercebi direito do valor acordado. Tinha sido engolida.
Comecei por pagar quatro pulseiras às duas mulheres sentadas à direita. Passei-lhes o dinheiro para as mãos e continuei a conversar com as mulheres da esquerda, a quem ia comprar mais duas. Antes disso, perguntei se podia tirar uma fotografia com elas, tirando partido do seu total à vontade com a minha presença e da recepção, no mínimo, calorosa. “Yes! Take with the baby too!”, responderam, com todo o espírito prático. Já quase perfeitamente confortável, saltei para o lado de lá da banca e sentei-me entre as mulheres da direita e as mulheres da esquerda.

O meu pai estava responsável por tirar a fotografia e eu, como elas, por esboçar um sorriso e olhar para o telemóvel. De repente, reparei que só as duas mulheres com que tinha acabado de negociar não estavam prontas para o “click”. “Look at the pictures, girls!”, disse eu, orgulhosa por ter conquistado aquela proximidade. Nada. “Girls, the picture!”, repeti, e desta vez, toquei no braço da que estava mais perto. Nada, continuei a ser ignorada.

Demorei alguns segundos até perceber o que estava acontecer ali. Ri-me de mim para dentro, porque a minha curiosidade ingénua me tinha precipitado na avaliação daquela relação. Já tinha comprado as pulseiras. Já tinha perdido o meu tempo de antena. Voltei-me novamente para a câmara, conformada, e tirei, em rápidos segundos, a fotografia com as “amigas” que ainda me restavam. Era esse o acordo.

Só mais tarde descobri que nos tínhamos encontrado com cinco mulheres Himba. O nosso taxista explicou-nos tratar-se de uma etnia nómada do norte da Namíbia. Já tinha visto mulheres parecidas em algum lugar, talvez na Internet ou numa revista da National Geographic. Mas a minha feliz ignorância de não fazer a menor ideia de que comunidade/etnia/tribo se tratava tornou aquele momento ainda mais caricato.

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