Tempo de antena

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Tínhamos chegado há pouco mais de duas horas a Windhoeck, capital da Namíbia, depois de uma interminável viagem de 21 horas de camioneta. Ao passearmos na rua, desembocamos numa feira de bijutaria africana. Passei e olhei discretamente, sem parar em nenhuma das banquinhas. Estava em território novo, sentia-me intimidada, e desconfiava que se me debruçasse com o mínimo interesse sobre alguma pulseira ou anel, dificilmente me “safaria” de lidar com a minha timidez de estrangeira. Tentei passar despercebida… Em vão.

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(Des)pertença

“Falam português?!”, ouvimos, no segundo em que entrámos na loja de artesanato. Estava com o meu pai e um guia local na township de Imizamo Yethu, uma favela nos subúrbios de Cape Town. A voz era de um vendedor angolano na casa dos 40, alto, magro, olhos pequenos. “Que bom poder falar a minha língua!”, disse, com uma expressão de entusiasmo sincera. Estava contente por receber-nos ali.

Enquanto vasculhávamos os objetos da loja, à procura do melhor presente para comprar, deixámo-lo a descrever a sua história. Contou-nos que teve que sair de Angola, durante a guerra civil. Recusara associar-se aos dois movimentos de libertação proeminentes, o MPLA e a UNITA, deixando no ar a sugestão de que o seu regresso não seria fácil.

Perguntei-lhe se gostava de viver em Imizamo Yethu, devolveu-me um “não” imediato, acompanhado de uma embalagem de queijo vazia nas mãos. “Veja, está fora do prazo, foi isto que eu comi hoje.”

Continuou a falar-nos de si, contou-nos de onde surgiu o seu nome: “O senhor Martins adotou-me. O Fortunato era um amigo dele. Então o meu nome é Fortunato Martins, nome do amigo dele e seu próprio nome. Abreviando fica Tinato.” Quando lhe perguntei se alguma vez tentou rever a família em Angola, respondeu que sim, mas que os pais adotivos não o deixaram ficar. “Até hoje o meu coração não consegue acreditar.”, concluiu.

Apesar de não ter percebido tão bem quanto gostaria os contornos da história do Tinato, houve alguma coisa nele que me deixou profundamente comovida. A ingenuidade do olhar, a simpatia otimista, a solidão. A generosidade com que partilhou a sua história e a felicidade de poder falar português naquele dia inesperado.

15 minutos passaram e o nosso guia sul-africano, o Kenny, já desistira de esconder a impaciência – talvez porque não estivesse a perceber nada da conversa, talvez porque tivesse pressa em levar-nos até à paragem a tempo do próximo autocarro de regresso à cidade. Despedi-me rapidamente, mas não queria ir embora. Queria ter ficado ali, o resto do dia, a falar português com o Tinato.

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