A mulher da cabeça giratória

42659807_10214331548895966_2180350597469831168_nEnquanto espero que o autocarro arranque, observo. Já estou dentro, sentada num dos lugares da primeira fila, e os restantes passageiros continuam a entrar. Tenho uma janela gigante à frente dos olhos – a parte frontal da camioneta – que momentaneamente se converte em tela de cinema. Um filme mudo: não consigo ouvir as vozes no exterior.

A sinopse impõe-se, não foi premeditada, e não podia ser mais vulgar: o frenesim de uma estação rodoviária numa manhã de verão. Miúdas alemãs de mochila às costas… Um casal que se despede da eventual filha quarentona… Algumas dezenas de pessoas a entrar e a sair. E, de repente, uma outra figura, que me detém a atenção.

Deve ter entre 20 e 30 anos, até menos, quem sabe, tendo em conta a pele negra impecável, lisa e brilhante. Traz um turbante amarelo garrido na cabeça, e roupa desportiva no corpo. Está mesmo à entrada de um outro autocarro, estacionado ao meu lado, como que à espera de alguma coisa para subir.

“Quem será aquela mulher?”, questiono-me, “E do que estará à espera?… Será de um bilhete, de alguma informação do motorista? Porque é que está sempre a girar a cabeça, projectando o olhar de forma calma, mas sem foco, para todo o lugar?”.

Continuo a remoer perguntas na minha cabeça, enquanto observo os gestos inesperados daquela mulher. Vejo nela a confusão de um estrangeiro em país desconhecido mas, ao mesmo tempo, uma tranquilidade – ou será amorfia?! – invulgar. Enquanto ela continua ali, especada, de olhos perdidos, o motorista e a respetiva assistente ignoram-na, consistentemente. Já lhe devem ter dado alguma resposta, imagino, e agora lidam com os bilhetes dos restantes passageiros.

De repente, num momento cómico do filme, ela cuspe de forma generosa e indiscreta para o chão. Está mesmo ao lado dos funcionários, mas ninguém repara. Agora é que não consigo mesmo parar de olhar.

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Quão apressada pode ser uma interpretação?

Nestas idas e vindas no metro, em que o telemóvel ia na carteira, deixei recair a atenção sobre uma senhora triste. Devia ter uns 60 e tal anos, máximo 70, e encostava a cabeça dormente à janela.

“Estaria a dormir”, pensei, “se tivesse os olhos fechados”. Mas os olhos semi-cerrados, apontados para o chão, levaram-me a concluir que estava desperta. Estava a pensar.

Comecei a magicar razões para tal expressão de desânimo, quando me apercebi de uma segunda presença ao seu lado. Um homem da mesma idade (seria seu marido?), de postura erguida, lia o jornal Record.

Enquanto observava o senhor a espingardar frases soltas, sem conseguir ouvir o que dizia, sentia aumentar o sentimento de compaixão em relação à mulher. “Ela está triste, homem! E tu alheio, a reclamar do jogador que não acertou na bola!”, atrevi-me a pensar.

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“Will you take a picture with me?”

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“Will you take a picture with me?”, foi a pergunta que mais nos fizeram ao longo da noite. Antes da partir para a Índia já me tinham “avisado” de que isso aconteceria muitas vezes: os indianos gostam de tirar fotografias com estrangeiros e, por isso, devia estar preparada para muitos pedidos. Não era possível perceber o significado dessa proposta até o alvo ser eu própria, e confesso que continuo até hoje a tentar dissecar o fenómeno.

Esta fotografia foi tirada num casamento hindu, para o qual fomos convidados, mas há mais. Muitas mais. Para se perceber a dimensão da “questão”, a certa altura, o meu pai e eu éramos mais protagonistas da festa do que os próprios noivos. Fomos invadidos por flashes durante mais de 20 minutos, e os olhos estiveram postos em nós durante todo o casamento. Deram-nos flores, comida, e mal manifestássemos a mínima vontade como, por exemplo, sede, já tínhamos um copo de água na mão. Uma das matriarcas chegou a agarrar-me pelos dois braços e a olhar-me fixamente nos olhos, calada e com um sorriso.

Que loucura, que louco mesmo. Achava que ia ser eu a tirar fotografias, mas, afinal… Nunca me senti tão gratuitamente adorada, admirada, sei lá, nem sei bem que palavra usar. Passei o resto da viagem a tentar perceber o porquê de tudo isto e, a cada dia passado, um dado novo permitiu que compreendesse melhor.

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As ilhas de Pahar Ganj

Entre carros, pessoas, lixo, vacas, cães, gatos, comida, tecidos, bicicletas e tudo o que possa caber numa rua… Um hostel recolhido, numa via estreita, alheio à confusão dantesca do bairro de Pahar Ganj, em Nova Deli.

Fiquei a pensar se esta seria uma tendência por aqui e acredito que sim: com as vias principais tão saturadas, há construções, como este hostel, que aos poucos vão fugindo para dentro de ruelas (semelhantes às ilhas, no Porto) onde encontram espaço e recolhimento.

Nestes lugares, o contraste com a confusão das ruas principais é tal que parece que descemos ao subsolo ou estamos dentro cavernas. Em pelo menos 3 lugares onde passei hoje o cenário repetiu-se: de repente, enfiamos-nos num labirinto de ruas estreitas (um guia a indicar o caminho, claro) e estamos num hotel, num restaurante, numa loja. Não há praticamente janelas ou ruído nestes lugares, porque estamos longe da rua. A sensação é de maior segurança, por um lado, sim, mas também de uma certa prisão. Há pouca luz, há pouco sol.

É impensável a existência de uma varanda com espreguiçadeiras ou de uma esplanada ao ar livre num lugar como este. A forma como se convive com a rua é desconcertantemente diferente de tudo o que já vi até hoje.

A confusão é tal que não há espaço para medo. A sujidade é tal que não há espaço para nojo. Há apenas a necessidade, espontânea e imposta, de se estar alerta, porque tudo desperta os sentidos.

Hoje vi de tudo nas ruas de Deli. Um grupo de três cegos entrelaçados uns nos outros a andarem pelos milhares de carros. Famílias inteiras empoleiradas em motas. Indianos que mais pareciam sábios ou gurus a tirar selfies. Vacas a pastar no meio da rua como se de cães vadios se tratassem. Palácios riquíssimos lado a lado de prédios podres. Hoje vi de tudo, sim, mas, na verdade, sinto que não consegui ver nada. Não verdadeiramente. Falta-me compreender este lugar. Falta-me saber assimila-lo.

Em 10 dias é tarefa impossível, mas quem sabe aos poucos esta descrição enriquece…

[Na parede do hostel, marcas de um ex-hóspede português levaram a que tentasse explicar o significado da palavra saudade a um dos primeiros indianos que conheci. Uma referência familiar e inesperada à chegada de Deli.]

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Andar de metro é um privilégio – parte II

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Fazer o mesmo percurso todos os dias tem uma contrapartida engraçada. Repete-se o caminho, repetem-se as estações e, no meio da multidão ensardinhada no metro, repetem-se também as caras que, como eu, repetem o mesmo percurso, todos os dias.

Às vezes penso que no dia em que a minha rotina mudar – e vai mudar, naturalmente – nunca mais vou ver aquelas caras. Assim é, assim tem de ser, porque elas só fizeram sentido para mim ali, naquele espaço, naqueles dias, pela circunstância comum de partilharem o mesmo percurso que eu.

A ausência de relação entre mim e as pessoas do metro é a maior certeza deste texto. Mas o que falha em ligação sobra em espaço para imaginar. E agora, não consigo evitar um sorriso discreto de cada vez que vejo alguma destas caras, que, por simples repetição, se tornaram familiares para mim.

Pelo propósito lúdico de descrever aquilo que vejo e de registar instantes que de outra forma ficariam perdidos na minha memória, decidi fazer uma lista de quem mais encontro. A lista que se segue é referente a pessoas reais, mas a descrição de cada uma é absolutamente subjetiva. É baseada naquilo que observo e naquilo que me atrevo a magicar, nas minhas infinitas incursões pelo metro de Lisboa.

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Salvador Sobral, o anti-herói português

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Não queria cansar muito mais o assunto, mas houve alguma coisa no fenómeno Salvador Sobral que me deixou a pensar e incitou a escrever. Como é habitual, o “buzz” em torno do artista foi-me chegando gradualmente…Três, seis, dez posts por dia, até que enfim abri o Youtube e ouvi a música, alvo de tantas e tantas partilhas nas redes sociais.

Sob o risco ferir sensibilidades com o que vou dizer de seguida, senti honesta surpresa ao ver e ouvir a atuação pela primeira vez. Sim, achei o tema bonito. Sim, a voz agradável também. Mas seria caso para tanto?… O que é que se passa com as pessoas, ou o que é que se passa comigo, que não consigo apreender a transcendente beleza de “Amar Pelos Dois”?

Continuei a matutar, a pesquisar, a ler notícias, crónicas, até que me esbarrei com a página do Facebook da Eurovisão da Canção. Aos poucos, as ideias foram ficando mais claras…

No sobe e desce da página, fui conhecendo os restantes candidatos. Não foram necessários muitos minutos para me aperceber dos traços em comum daquele grupo de “performances”: música pop, apelo comercial, interpretação em inglês, alto espalhafato no palco… Se pudesse nomear uma referência rápida para aquele conjunto de participações? Lady Gaga.

E de repente, entre as carradas de vídeos e posts, surge novamente no ecrã o Salvador Sobral, com o triplo ou o quádruplo de likes e de mensagens de força das mais variadas partes do mundo. Desta vez, consegui vislumbrar o tal português despretensioso, simples, autêntico. O Salvador Sobral que dispensa pirotecnias, atua sozinho e na língua materna. Conhecidos os contornos daquele contexto, ficou mais clara, enfim, a súbita “Salvadormania”.

É engraçado como a minha perceção mudou, mal atribui um termo de comparação e um contexto ao fenómeno. Se da primeira vez que vi o vídeo senti um certo despropósito na idolatria daquela figura, da segunda já consegui gostar – e até comover-me – com a tão aclamada atuação. Mas porquê, então? Porque é que só depois de conhecer o contexto é que verdadeiramente consegui apreciar o Salvador Sobral?

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O inquietante mundo de Robert Mapplethorpe

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Há pouco tempo caí, sem querer, no inquietante mundo de Robert Mapplethorpe. Não conhecia o fotógrafo, nem de nome, até ver um documentário sobre a sua gritantemente polémica vida e obra.

 “Robert Mapplethorpe: Look at the pictures” é um tatear cronológico sobre o percurso do protagonista. Desde a educação católica, à relação com a cantora punk Patti Smith, às sessões sadomasoquistas num clube nova-iorquino chamado The Mineshaft, à morte, com SIDA, aos 42 anos.

A vida de Robert é nos apresentada como um crescendo de excessos e um superar de cada um deles, incansavelmente documentado pelo fotógrafo através da sua obra. Obra que, tal como a sua própria vida, se polariza  entre inofensivas fotografias de flores e – atenção que o conceito é discutível – pornografia sadomasoquista gay.

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